Nutrigenômica e Nutrigenética: um novo olhar sobre as dietas individualizadas




Nos últimos 20 anos, o Brasil e outros países da América Latina passaram pela chamada transição nutricional, caracterizada por mudanças nos padrões de nutrição devido às modificações no consumo alimentar. Com essa transição, a incidência de desnutrição diminuiu significativamente, enquanto o número de casos de sobrepeso e obesidade cresceu consideravelmente. Esse aumento fez com que pesquisas e estudos sobre controle de peso, prevenção da obesidade e de doenças crônicas ganhassem destaque entre os pesquisadores.


Com a evolução da ciência e das pesquisas foi descoberto a partir do Projeto Genoma Humano, que há uma diferença na sequência dos genes que resulta em distintas respostas que cada indivíduo pode apresentar frente a própria escolha dos alimentos. Essa é chamada de Nutrigenética, na qual demonstra o efeito da variação genética em resposta à dieta. Diferentemente, a Nutrigenômica é a ciência que estuda as influências de fatores dietéticos no genoma humano, trazendo respostas de como os compostos bioativos e nutrientes podem contribuir para a modificação da expressão gênica, permitindo uma melhor compreensão de como os componentes alimentares afetam as rotas metabólicas e a homeostasia celular.


A identificação de que o nutriente tem a capacidade de interferir e modular mecanismos ao nível molecular e que isso acarreta benefícios nas funções fisiológicas do organismo, sugere uma revolução no campo da nutrição. Essa modulação ocorre por meio dos mecanismos epigenéticos, que aumentam a expressão gênica pelas mudanças na estrutura dos cromossomos, a exemplo da metilação do DNA. Por estar diretamente ligada ao remodelamento da cromatina, a metilação é processada pela presença de nutrientes, sendo a enzima responsável por esse processo a S-adenosilmetionina, capaz de metabolizar nutrientes provenientes da dieta como colina, metionina, ácido fólico, vitaminas B6, B12 e B2. Em contrapartida, a deficiência desses nutrientes causa alterações no metabolismo do carbono, prejudicando a metilação do DNA e aumentando o risco de doenças crônicas. Outros estudos mostram a interação dos nutrientes e compostos bioativos na modulação genética, como por exemplo a curcumina, que evita a transcrição de genes com atividade pro-inflamatória; a epigalocatequina galato (EGCG), encontrada na Camellia sinensis, que possui efeito inibitório sobre a ativação do fator de transcrição AP-1, que contribui para a resistência periférica à insulina, entre outros.


As descobertas, das interações de hábitos dietéticos com o perfil genético de cada indivíduo, têm dado outra visão para o termo “dietas personalizadas”. Contudo alguns estudos sugerem certas limitações do uso dessa vertente em atendimento nutricional, atualmente, devido. à falta de evidências de casos de sucesso que pode ser atribuída a três fatores interligados: primeiro, que o tempo decorrido entre o início dos ensaios clínicos e os resultados obtidos não tenha sido suficiente para que os pesquisadores pudessem estabelecer conexões definitivas entre nutrientes/dietas específicos e o perfil genético de cada indivíduo; segundo, que caracterizar e identificar os processos fisiológicos associados a determinadas deficiências é altamente complicado e exige essa conexão entre produtos farmacêuticos específicos, e, por fim, o último fator citado está relacionado ao alto custo de um exame de mapeamento genético e aos inúmeros fatores que o profissional nutricionista teria de considerar ao prescrever uma dieta totalmente baseada no sequenciamento genético.


A divergência entre resultados e opiniões dos pesquisadores mostram que esse é um campo com potencial para pesquisas e expansão de conhecimentos que podem agregar ao nutricionista um novo método para prescrição dietética mais assertiva.


REFERÊNCIA


FALL, T.; INGELSSON, E. Genome-wide association studies of obesity and metabolic syndrome. Mol. Cell. Endocrinol., v. 382, p. 740–757, 2014.


FUJII, T. M. M.; MEDEIROS, R.; YAMADA, R. Nutrigenômica e nutrigenética: importantes conceitos para a ciência da nutrição. Nutrire: rev. Soc. Bras. Alim. Nutr., São Paulo, SP, v. 35, n. 1, p. 149-166, abr. 2010.


JANSSENS, A. C. et al. Uninformed consent in nutrigenomic research. European Journal Of Human Genetics, v. 25, n. 7, p.789-790, 10 maio 2017.


SCHORK, N. J.; GOETZ, L. H. Single-Subject Studies in Translational Nutrition Research. Annual Review Of Nutrition, v. 37, n. 1, p.395-422, 21 ago. 2017.

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