Cérebro e intestino: um canal de comunicação vital

September 10, 2018

 

 

O trato gastrointestinal possui trilhões de bactérias com características próprias e que formam um ecossistema único para cada indivíduo, uma espécie de segunda impressão digital, particular e intransferível.

 

A microbiota intestinal, nome dado ao conjunto de bactérias presentes no intestino, tem o poder de modular a fisiologia dos órgãos do próprio trato gastrointestinal, além de outros bem distantes como o cérebro, por exemplo, alterando a suscetibilidade do organismo a doenças. Alguns estudos têm mostrado que a microbiota regula o desenvolvimento e a função cerebrais, e, à medida que distúrbios afetam o funcionamento deste ecossistema, aumenta-se a suscetibilidade ao desenvolvimento de doenças neuropsicológicas. Além disso, acredita-se que distúrbios na comunicação bilateral entre cérebro e intestino estejam diretamente relacionados à ocorrência de doenças como autismo, Parkinson, distúrbios de humor e dores crônicas.

 

O mecanismo de modulação gastrointestinal ocorre mediante a habilidade dessas bactérias de alterarem a permeabilidade da parede do intestino, a função imune da mucosa e a motilidade intestinal. Embora o mecanismo de comunicação entre cérebro e intestino ainda permaneça desconhecido, especula-se que substâncias com atuação no sistema neurológico e imune, provenientes do intestino, sejam conduzidas pela corrente sanguínea, atravessem a barreira de proteção no cérebro – a barreira hematoencefálica ‒, afetando o funcionamento do sistema nervoso. Nesse contexto, a literatura tem mostrado que ratos que cresceram em um ambiente estéril, livre de bactérias, apresentaram maior suscetibilidade a distúrbios cognitivos, comportamentais e de ansiedade.

 

A composição da microbiota de cada pessoa depende de fatores como a forma de nascimento (parto natural ou via cesárea), a predisposição genética, a idade, a nutrição, a atividade física, os fatores ambientais, o estresse, a predisposição à doenças e o uso de antibióticos. Sabe-se também que sua composição pode ser influenciada pelo estresse fisiológico e emocional. Cientistas constataram que estudantes saudáveis, ao atravessar um período extremo de estresse, apresentaram menor quantidade de bactérias benéficas do tipo Lactobacilli nas fezes quando comparado a períodos de menos estresse. Adicionalmente, camundongos, quando expostos a situações estressantes, revelaram diminuição do número de bactérias benéficas e aumento daquelas consideradas prejudiciais ao organismo.

 

O cuidado com a microbiota intestinal, por meio da adoção de uma dieta balanceada e diversificada, ajuda a nutrir bactérias importantes para a saúde do organismo de maneira geral. Nessa mesma linha, compreender os mecanismos pelos quais a microbiota modula doenças neurodegenerativas pode representar um importante passo no desenvolvimento de terapias para tratamento e prevenção destas doenças.

 

Referências:

 

FRÖHLICH, E.E. et al. Cognitive impairment by antibiotic-induced gut dysbiosis: analysis of gut microbiota-brain communication. Brain, behavior, and immunity, v. 56, p. 140-155. 2016.

 

MAYER, E.A. et al. Gut/brain axis and the microbiota. The Journal of clinical investigation, v. 125, n.3, p. 926-938, mar. 2015.

 

PETRA, A.I. et al. Gut-microbiota-brain axis and its effect on neuropsychiatric disorders with suspected immune dysregulation. Clinical therapeutics, v. 37, n. 5, p. 984-995, mai. 2015.

 

SHERWIN, E. et al. A gut (microbiome) feeling about the brain. Current opinion in gastroenterology, v. 32, n. 2, p. 96-102, mar.2016.

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